Desconfortos que se manifestam em atividades simples, como escrever manualmente, digitar ou segurar dispositivos móveis, estão entre os primeiros indícios de lesões que afastam anualmente centenas de milhares de trabalhadores no Brasil.
Essa situação é comum em diversos ambientes, incluindo escritórios, salas de aula e lojas. Um indivíduo segura uma caneta por alguns instantes, sente um peso no punho, solta o objeto e agita a mão para aliviar o desconforto. Para muitos, essa rotina é encarada como um sinal de cansaço após um longo dia. Contudo, esse sintoma muitas vezes revela mais do que parece.
A dor que surge ao realizar movimentos como escrever ou digitar raramente aparece sozinha. Geralmente, é a primeira indicação de uma sobrecarga nos tendões — as estruturas que conectam músculos aos ossos e possibilitam a destreza das mãos.
Quando esses tendões são submetidos a esforços excessivos, passam a se inflamar. É nesse ponto que um desconforto temporário pode evoluir para um problema crônico.
Um cenário em expansão com o aumento do trabalho
As lesões por esforço repetitivo e os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho, conhecidos pela sigla LER/DORT, figuram entre as principais razões para afastamentos laborais no país. Informações do Ministério da Saúde revelam que aproximadamente 15 milhões de brasileiros enfrentam algum tipo dessa condição, um aumento próximo a 20% nos últimos cinco anos.
Esse fenômeno se reflete nas estatísticas da Previdência Social. Dados de 2025 indicam que as LER/DORT corresponderam a 42% dos afastamentos por doenças relacionadas ao trabalho no Brasil, resultando na saída de mais de 620 mil trabalhadores do mercado ativo. As tendinites de punho e mão estão entre as condições mais recorrentes, juntamente com lesões no ombro e cotovelo.
Analisar o perfil dos afetados ajuda a compreender a situação. Uma pesquisa realizada entre 2018 e 2022 registrou mais de 34 mil casos, com uma predominância feminina representando 53,6% do total e uma maior concentração na faixa etária entre 35 e 49 anos.
“Essas são pessoas em pleno vigor profissional, muitas atuando em funções que demandam intensa digitação ou manuseio contínuo de ferramentas durante todo o dia”, afirma um médico do COE, clínica especializada em ortopedia localizada em Goiânia.
A vulnerabilidade das mãos
As mãos são formadas por pequenos ossos, articulações delicadas e uma complexa rede de tendões que precisam atuar em harmonia a cada movimento. Atividades como segurar uma caneta, pressionar teclas ou deslizar a tela do celular podem parecer simples, mas envolvem várias dessas estruturas simultaneamente. A repetição diária transforma esses gestos simples em potenciais fontes de inflamação.
Entre as condições mais comuns está a tenossinovite — inflamação da bainha que envolve o tendão — e o dedo em gatilho, quando o dedo trava ao ser dobrado ou esticado. Além disso, há a síndrome do túnel do carpo, resultante da compressão do nervo mediano dentro do punho, causando dormência e formigamento na palma da mão e nos dedos. Esse nervo é responsável por parte da sensibilidade da mão e pelos músculos relacionados ao polegar.
Sozinha, a síndrome do túnel do carpo foi responsável por cerca de 24 mil afastamentos laborais em 2023, conforme dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão.
Os especialistas alertam que alongamentos regulares das mãos e punhos podem ser eficazes na prevenção quando realizados sob orientação adequada. No entanto, sinais como dormência noturna, perda de firmeza ao segurar objetos e formigamento persistente não devem ser ignorados; eles indicam que o problema já pode estar avançado.
Um aspecto frequentemente negligenciado é o tempo decorrido até buscar ajuda médica. Muitos pacientes esperam meses ou até anos antes de procurar tratamento. Quando a dor se torna constante ou limita atividades cotidianas simples como abrir potes ou segurar objetos, já existe uma condição instalada.
Nesses casos, consultar um cirurgião especializado pode ser crucial para identificar a origem do problema antes que a lesão se torne grave e exija intervenção cirúrgica.
O perigo de desconsiderar os sintomas
A demora no diagnóstico pode ser compreendida pelo caráter intermitente da dor inicial. Ela tende a surgir durante atividades físicas e desaparece com o repouso, criando a falsa impressão de que apenas descansar é suficiente. Essa sensação temporária pode atrasar a busca por avaliação médica enquanto permite que a inflamação se agrave.
Profissionais especializados enfatizam a importância de buscar atendimento ao primeiro sinal recorrente de desconforto. Quando identificados precocemente, muitos casos respondem bem ao tratamento conservador — incluindo repouso orientado, fisioterapia e ajustes posturais no ambiente laboral — além de infiltrações em alguns casos específicos. As taxas de sucesso para tratamentos iniciais combinando acompanhamento multidisciplinar superam os 80%.
A diferença entre um tratamento simples ou complexo geralmente reside no tempo decorrido até procurar ajuda. Quanto mais cedo for feita essa busca por assistência profissional menor será a probabilidade de precisar considerar cirurgia; quanto mais tarde for procurada ajuda maior será o risco de afastamento prolongado e perda funcional nas mãos.
A escolha do profissional também é fundamental neste processo. Embora ortopedistas gerais possam fazer uma avaliação inicial adequada das queixas apresentadas pelos pacientes, situações envolvendo tendões finos e nervos requerem especialistas na área específica.
Consultar um ortopedista especializado em cirurgia da mão traz mais precisão diagnóstica devido à sua formação específica voltada para estruturas delicadas que demandam exames detalhados para serem corretamente interpretadas.
Movimentos repetitivos nas diversas profissões
Em cidades como São Roque — onde atividades comerciais se misturam com serviços rurais voltados à viticultura — existem diversos gestos repetitivos exigidos dos trabalhadores diários diante dos computadores ou realizando tarefas manuais.
Atividades como podas nas parreiras ou atendimento ao público aliadas ao uso constante do teclado ou digitação em celulares exigem esforço contínuo das mãos sob diferentes formas. O elemento comum é a frequência com que essas estruturas são utilizadas.
Esse padrão explica porque as reclamações sobre dores nas mãos ocorrem independentemente da idade ou profissão: quem trabalha sentado sente dor no punho após longas horas; quem usa ferramentas percebe perda na firmeza; estudantes relatam cansaço nas mãos após escrever por muito tempo. As manifestações variam em intensidade mas refletem uma mesma sobrecarga nos tendões.
Por outro lado, muitas dessas questões podem ser mitigadas com mudanças comportamentais simples: pausas rápidas durante o dia; alongamentos regulares das mãos; ajustes na altura da tela; bem como cuidado na forma como seguramos dispositivos móveis podem diminuir consideravelmente a pressão sobre os tendões. A ergonomia passou a ser considerada essencial tanto na prevenção quanto no tratamento desses problemas.
Caso essas intervenções não sejam suficientes e as dores persistirem, uma avaliação especializada poderá orientar os próximos passos necessários. Centros ortopédicos compostos por subespecialidades — como aqueles localizados em Goiânia — direcionam cada caso para profissionais capacitados para tratar especificamente aquele tipo de lesão.
Um exemplo é o trabalho desenvolvido pelo Dr. Henrique Bufaiçal — referência nacional em cirurgia da mão — cuja atuação abrange desde tratativas das tendinites até questões relacionadas à síndrome do túnel do carpo.
A mensagem dos especialistas é clara: as mãos desempenham papel fundamental nas atividades diárias — desde tarefas profissionais até ações cotidianas simples — e costumam sinalizar quando algo não está certo. Ignorar dores associadas à escrita apenas como cansaço pode transformar um incômodo tratável numa condição difícil de reverter. Por isso ficar atento aos primeiros sinais continua sendo o caminho mais seguro para garantir o funcionamento adequado das mãos.
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